Como no restante do Brasil, a Escola de Serviço Social aqui, no Ceará, surge diretamente ligada à Igreja Católica e fortemente marcada pelo Movimento Laico. Os membros fundadores da Escola são: Maria Áurea Bessa (Freira e Presidente da Juventude Feminina Católica Cearense), Norma Cabral e Nair Studart participantes de grupos da Ação Católica local.
Nessa época, a Igreja Católica (não apenas no Ceará, mas no mundo inteiro) passava por transformações internas que afetaram sobremaneira sua relação com os demais setores da sociedade. Os movimentos católicos que congregavam a juventude e se denominavam através de siglas como JUC, JIC, AP, ACO e outros, eram eminentemente compostos pela classe média, movidos pela capacidade de aprofundar a análise sobre o sistema capitalista, adotando um discurso libertário e não mais desenvolvimentista.
A Escola de Serviço Social de Fortaleza se instalou em um prédio pertencente à Arquidiocese, localizada à Avenida Barão de Studart, 1685, no bairro da Aldeota, no dia 25 de março de 1950.
Segundo depoimento de D. Áurea Bessa, concedido a Professora Neíse Távora, em 1987, a escolha da data para a inauguração da Escola de Serviço Social se deveu a dois fatos, como comemoração da Abolição dos Escravos no Ceará e em homenagem à Festa da Anunciação (data muito importante para a Igreja Católica).
Vale ressaltar que, o Curso de Serviço Social foi inserido no Instituto Social juntamente com o curso de Educação Familiar. Tal Instituto era mantido pela Associação de Educação Familiar e Social – cujo presidente era o Arcebispo de Fortaleza, Dom Antônio de Almeida Lustosa. Na primeira turma se matricularam no curso de Serviço Social 42 alunas e 26 alunas no curso de Educação Familiar.
O arcabouço teórico que norteou as primeiras turmas de Serviço Social abrangia disciplinas relacionadas à Sociologia, Psicologia, Higiene, Enfermagem, Puericultura, Direito, Moral, Patologia Social e Doutrina Social da Igreja. Não havia a disciplina de Filosofia e as disciplinas referentes ao Serviço Social diziam respeito apenas à Introdução.
De acordo com a Professora Carmencita, que foi aluna do curso de Serviço Social na sua primeira década de existência aqui no Ceará, não era necessário ter concluído o segundo grau, ou científico na época, para ingressar na Escola. É tanto que, na primeira turma que se formou aqui no Estado algumas alunas tinham concluído apenas a quarta série ginasial (o que corresponde hoje a nona série do ensino fundamental dois).
Somente após o curso ser agregado à Universidade do Ceará (hoje Universidade Federal do Ceará) e ter reconhecimento de nível superior foi que passou-se a exigir como critério de aprovação, além da seleção, a conclusão do Ensino Médio ou Científico.
Após terminarem o curso de Serviço Social, as ex-alunas passavam por uma espécie de estágio na fundação Antônio Dias Macêdo e eram colocadas à disposição da Paróquia Nossa Senhora das Graças, que mantinha o Centro Social Paroquial Lar de Todos localizado no bairro Pirambu.
Com base no depoimento da Professora Carmencita, é possível comprovar a real ligação do Serviço Social com a Igreja Católica no seio da sociedade cearense. O fato de uma das fundadoras, a senhora Maria Áurea Bessa (que foi diretora da Escola) ser freira representa o poderio da Igreja Católica face às manifestações da questão social.
O currículo mínimo das primeiras turmas da Escola de Serviço Social obedecia a um critério positivista que sectarizava e atomizava a totalidade social. Disciplinas como Sociologia, Medicina, Direito, entre outras, geravam uma compreensão da sociedade como algo estático, em que se podia atuar tratando, por assim dizer, as anormalidades que assolavam a ordem social perfeita. Portanto, o assistente social era uma espécie de patologista social (e existia a disciplina Patologia, como se pode conferir no Anexo 1) que atuava como um técnico do tratamento da questão social.
Esse tecnicismo foi o que começou a ser questionado pelo Serviço Social ao longo da década de 1960. A aproximação com as classes trabalhadoras e a insatisfação com os resultados obtidos através da intervenção individual e grupal fizeram com que a tradicionalidade da profissão começasse a sofrer desgastes.(Trecho extraído do meu TCC: Serviço Social no Ceará: Uma breve análise do Movimento de Reconceituação.)
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